quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Despedida



Uma harpa envelhece.

Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores

sonham junto às estátuas de treva.

A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.

Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se

foi amor.

Certo rumor de cálices, uma súplica ao dealbar das

ruínas,

tudo se perdeu no solitário campo dos céus.

Uma estrela caía.

Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do

sul, a sua extrema dor anoitecida.

Não vens jamais.

O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me

entristeço, a absoluta condenação.

Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam

no centro desta cidade.

Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim,

as tuas folhas de outubro.

Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça,

a nudez de quem sangra à vista das catedrais.

O meu peito abriga as tuas sementes, e morre.

Esta música é quase o vento.



A Noite não me Deu nenhum Sossego






Como voltar feliz ao meu trabalho

se a noite não me deu nenhum sossego?

A noite, o dia, cartas dum baralho

sempre trocadas neste jogo cego.

Eles dois, inimigos de mãos dadas,

me torturam, envolvem no seu cerco

de fadiga, de dúbias madrugadas:

e tu, quanto mais sofro mais te perco.

Digo ao dia que brilhas para ele,

que desfazes as nuvens do seu rosto;

digo à noite sem estrelas que és o mel

na sua pele escura: o oiro, o gosto.

Mas dia a dia alonga-se a jornada

e cada noite a noite é mais fechada.