quinta-feira, 22 de maio de 2014


O corvo

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga, 
Ao pé de muita lauda antiga, 
De uma velha doutrina, agora morta, 
Ia pensando, quando ouvi à porta 
Do meu quarto um soar devagarinho, 
E disse estas palavras tais: 
"É alguém que me bate à porta de mansinho; 
Há de ser isso e nada mais." 

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro; 
Cada brasa do lar sobre o chão refletia 
A sua última agonia. 
Eu, ansioso pelo sol, buscava 
Sacar daqueles livros que estudava 
Repouso (em vão!) à dor esmagadora 
Destas saudades imortais 
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora. 
E que ninguém chamará mais. 

E o rumor triste, vago, brando 
Das cortinas ia acordando 
Dentro em meu coração um rumor não sabido, 
Nunca por ele padecido. 
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito, 
Levantei-me de pronto, e: "Com efeito, 
(Disse) é visita amiga e retardada 
Que bate a estas horas tais. 
É visita que pede à minha porta entrada: 
Há de ser isso e nada mais." 
Minh'alma então sentiu-se forte; 

Não mais vacilo e desta sorte 
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora, 
Me desculpeis tanta demora. 
Mas como eu, precisando de descanso, 
Já cochilava, e tão de manso e manso 
Batestes, não fui logo, prestemente, 
Certificar-me que aí estais." 
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente, 
Somente a noite, e nada mais. 

Com longo olhar escruto a sombra, 
Que me amedronta, que me assombra, 
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado, 
Mas o silêncio amplo e calado, 
Calado fica; a quietação quieta; 
Só tu, palavra única e dileta, 
Lenora, tu, como um suspiro escasso, 
Da minha triste boca sais; 
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço; 
Foi isso apenas, nada mais. 

Entro coa alma incendiada. 
Logo depois outra pancada 
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela: 
"Seguramente, há na janela 
Alguma cousa que sussurra. Abramos, 
Eia, fora o temor, eia, vejamos 
A explicação do caso misterioso 
Dessas duas pancadas tais. 
Devolvamos a paz ao coração medroso, 
Obra do vento e nada mais." 

Abro a janela, e de repente, 
Vejo tumultuosamente 
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias. 
Não despendeu em cortesias 
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto 
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto, 
Movendo no ar as suas negras alas, 
Acima voa dos portais, 
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas; 
Trepado fica, e nada mais. 

Diante da ave feia e escura, 
Naquela rígida postura, 
Com o gesto severo, — o triste pensamento 
Sorriu-me ali por um momento, 
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas 
Vens, embora a cabeça nua tragas, 
Sem topete, não és ave medrosa, 
Dize os teus nomes senhoriais; 
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?" 
E o corvo disse: "Nunca mais". 

Vendo que o pássaro entendia 
A pergunta que lhe eu fazia, 
Fico atônito, embora a resposta que dera 
Dificilmente lha entendera. 
Na verdade, jamais homem há visto 
Cousa na terra semelhante a isto: 
Uma ave negra, friamente posta 
Num busto, acima dos portais, 
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta 
Que este é seu nome: "Nunca mais". 

No entanto, o corvo solitário 
Não teve outro vocabulário, 
Como se essa palavra escassa que ali disse 
Toda a sua alma resumisse. 
Nenhuma outra proferiu, nenhuma, 
Não chegou a mexer uma só pluma, 
Até que eu murmurei: "Perdi outrora 
Tantos amigos tão leais! 
Perderei também este em regressando a aurora." 
E o corvo disse: "Nunca mais!" 

Estremeço. A resposta ouvida 
É tão exata! é tão cabida! 
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência 
Que ele trouxe da convivência 
De algum mestre infeliz e acabrunhado 
Que o implacável destino há castigado 
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga, 
Que dos seus cantos usuais 
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga, 
Esse estribilho: "Nunca mais". 

Segunda vez, nesse momento, 
Sorriu-me o triste pensamento; 
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo; 
E mergulhando no veludo 
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera 
Achar procuro a lúgubre quimera, 
A alma, o sentido, o pávido segredo 
Daquelas sílabas fatais, 
Entender o que quis dizer a ave do medo 
Grasnando a frase: "Nunca mais". 

Assim posto, devaneando, 
Meditando, conjeturando, 
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava, 
Sentia o olhar que me abrasava. 
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto, 
Com a cabeça no macio encosto 
Onde os raios da lâmpada caíam, 
Onde as tranças angelicais 
De outra cabeça outrora ali se desparziam, 
E agora não se esparzem mais. 

Supus então que o ar, mais denso, 
Todo se enchia de um incenso, 
Obra de serafins que, pelo chão roçando 
Do quarto, estavam meneando 
Um ligeiro turíbulo invisível; 
E eu exclamei então: "Um Deus sensível 
Manda repouso à dor que te devora 
Destas saudades imortais. 
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora." 
E o corvo disse: "Nunca mais". 

“Profeta, ou o que quer que sejas! 
Ave ou demônio que negrejas! 
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno 
Onde reside o mal eterno, 
Ou simplesmente náufrago escapado 
Venhas do temporal que te há lançado 
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo 
Tem os seus lares triunfais, 
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?" 
E o corvo disse: "Nunca mais". 

“Profeta, ou o que quer que sejas! 
Ave ou demônio que negrejas! 
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende! 
Por esse céu que além se estende, 
Pelo Deus que ambos adoramos, fala, 
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la 
No éden celeste a virgem que ela chora 
Nestes retiros sepulcrais, 
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!” 
E o corvo disse: "Nunca mais." 

“Ave ou demônio que negrejas! 
Profeta, ou o que quer que sejas! 
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa! 
Regressa ao temporal, regressa 
À tua noite, deixa-me comigo. 
Vai-te, não fique no meu casto abrigo 
Pluma que lembre essa mentira tua. 
Tira-me ao peito essas fatais 
Garras que abrindo vão a minha dor já crua." 
E o corvo disse: "Nunca mais". 

E o corvo aí fica; ei-lo trepado 
No branco mármore lavrado 
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho. 
Parece, ao ver-lhe o duro cenho, 
Um demônio sonhando. A luz caída 
Do lampião sobre a ave aborrecida 
No chão espraia a triste sombra; e, fora 
Daquelas linhas funerais 
Que flutuam no chão, a minha alma que chora 
Não sai mais, nunca, nunca mais! 



Edgar Allan Poe por Machado de Assis

quarta-feira, 21 de maio de 2014



Eu prometo te amar incondicionalmente
A cada dia mais
Todo dia mais
Amar-te cada hora de alegria
Cada minuto da tristeza
Prometo meu coração entregue
coberto de flores
e folhas de amora
Entrego-lhe minha vida posta,
toda ela despida de preocupações e cotidianos
Toma meu sangue também
eu não preciso dele, ele é seu
Já derramei por nos
sobrou pouco, mas é seu
Dou também minhas mãos
As que tocam e distorcem a realidade
As que te acariciam no seu sono breve,
impávido, menina eu te amo tanto
toma meus dedos, meu peito magro
Meu pouco ar e minha bondade
Toda a minha bondade
Minha vontade de você
Meu elo perdido no seu calcanhar
Meu desalento, meu encanto verbal.
Minhas coragens e bobagens
Leva meu ser inteiro, seu
leva o que eu quero e o que não quero
leva tudo 
que eu preciso ser nada
ser nem cor
pra ser seu inteiramente para sempre
ser você toda minha vida.